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Para o Seu Bem, de Ronja Hemm

Este texto foi publicado originalmente no CineFestivais

por Iakima Delamare

Quando minha avó, com quatro filhos pequenos, se divorciou do marido, por volta de 1975, seu pai, um médico de relativa importância no contexto dos famosos hospícios de Barbacena, a deserdou. Poucos anos depois, quando uma chuva forte derrubou o telhado de sua casa e ela procurou a residência da família para abrigo, sua irmã mais nova, repetindo os comandos do pai, a expulsou. Quatro décadas depois, a acompanho em uma loja durante uma visita à cidade – ela realizou seu sonho de se mudar para a moderna Belo Horizonte. Em um breve diálogo com o vendedor, um senhor mais velho, ele a reconhece como moradora da cidade – e como “aquela que o marido abandonou”.

Quando minha mãe, com duas filhas adolescentes, se separou do meu pai, por volta de 2010, ela o fez com mais facilidade. Ela precisou, apenas, garantir sua independência financeira, tarefa não tão fácil quando, durante anos, qualquer dinheiro que ela tivesse teria que passar primeiro pelo meu pai. Sua ocupação primeira não gerava renda: cuidar de mim e da minha irmã.

Eu tenho hoje a idade que minha mãe tinha quando ela me teve. A partir daqui as nossas histórias já se diferem. Pois eu, assim como minha irmã, posso escolher com quem, quando e se eu caso. Se quero filhos, posso escolher quantos e com que idade os teria. Posso ter como única prioridade na vida o trabalho ou escolher não ter filho algum sem que uma cidade inteira me julgue por isso.

Trago essas memórias pois, por mais que Para o Seu Bem se passe no distante Nepal, ele também conta uma história sobre duas jovens, uma mãe e uma avó. E sobre como, em relativamente pouco tempo, três gerações de mulheres experienciaram vidas muito distantes no que diz respeito à liberdade de seus corpos.

As irmãs Sushila e Sapana habitam a urbana Katmandu e aguardam ansiosas pelas notícias que dirão se elas poderão partir para o Japão e continuar seus estudos por lá. Enquanto esperam, visitam o campo onde habitam sua mãe e avó. O filme prossegue então por uma série de diálogos entre as mulheres, em meio a refeições e cenas de trabalhos braçais pesados nos quais as mais novas tentam ajudar as mais velhas. São as jovens, porém, quem precisam de ajuda; apesar de jovens, seus corpos não são habituados ao trabalho braçal,

Mãe e Vó também aguardam ansiosas as notícias sobre o Japão. Esse cenário é fruto do esforço das duas para que as jovens tenham mais oportunidades do que elas mesmas tiveram. Mas algumas coisas, pelo menos, já parecem melhores: “elas comem arroz o tempo todo”, diz a mãe. “Arroz costumava ser algo especial”. As expectativas sobre Sushila, Sapana e seus futuros são altas.

Durante as conversas ouvimos um pouco sobre como era no passado. Nenhuma delas foi à escola porque, na época, a educação era reservada aos meninos. Às meninas restavam apenas o trabalho doméstico-rural e o casamento. “Era comum sequestrarem meninas” diz a Avó em resposta à pergunta da neta sobre seu casamento. Ela casou com um estranho aos 15 anos sem o consentimento dos pais ou o próprio. “Eu não poderia fazer isso com vocês hoje em dia” acrescenta a mãe.

A vida moderna das garotas é vista por elas como sinônimo de libertação. “Consiga um trabalho em um escritório”, aconselha a Avó sobre a vida nova no Japão, “para que não tenha que trabalhar como uma escrava”. Ela se refere ao trabalho que realizou durante toda a sua vida na roça. Trabalho braçal, pesado, interminável.

É aqui que, para mim, a narrativa do filme ganha algum nível de complexidade. Pois não deixo de pensar em que vida Sushila e Sapana terão no Japão, país com altos índices de mortes (algumas delas suicídios) devido ao excesso de trabalho em escritórios insalubres. Eu, que vivo igualmente a vida da jovem mulher urbana, vejo com suspeita a ideia da modernidade como salvação. Se por um lado é inegável o avanço nos direitos das mulheres, por outro, pode-se entender que, emancipadas ou não, seremos igualmente exploradas pelo capitalismo neoliberal.

Nesse cenário, existe algo da romantização do campo, tão comum em certa juventude brasileira, que me parece sensato. Pois, como dizia minha avó paterna após se mudar da roça pra cidade: “Na roça eu trabalhava muito mais. Mas lá a gente tomava banho de rio”. Acredito, então, ser comum a fantasiosa impressão de que a alternativa, seja o campo ou a cidade, oferece maior qualidade de vida. Mas acredito, também, estarem ambos os espaços sob influência da lógica capitalista de produção excessiva e exaustão dos corpos.

Quando o filme se encerra, não vemos a vida das garotas no Japão; apenas uma nota dizendo que ambas tiveram seus vistos aprovados, porém vivem separadas uma da outra por questões burocráticas. Assim como Sushila e Sapana e sua família, não sabemos o que virá pela frente. Resta, então, apenas esperar que encontrarão – e que encontremos aqui – algum equilíbrio entre as vidas experienciadas por essas mulheres. Como diz um dos ensinamentos de Buda, cultuado pelas mulheres do filme: há de se buscar o caminho do meio.

Iakima Delamare Ver tudo

Iakima Delamare é graduanda de jornalismo na UFMG, atua majoritariamente na pesquisa, crítica e produção cinematográfica. Como pesquisadora, tem em foco os cinemas indígenas e de quilombo. Como crítica, compôs o Júri Jovem da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes e a curadoria do 9º Cine Cipó, festival em que atua também como assistente de produção. Por fim, como realizadora, participou de produções audiovisuais como Nove Águas, curta dirigido por Gabriel Martins com a comunidade do Quilombo Marques, e Ela Viu Aranhas, de Larissa Muniz.

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