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Sobre a simplicidade da fé e a força do fantástico – Rosa Tirana (2021)

24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Mostra Aurora

Uma boneca, um oratório, uma flor. Esses elementos, levados por Rosa para acompanhar sua jornada pelo sertão nordestino em Rosa Tirana (2021), longa do baiano Rogério Sagui, são capazes de sintetizar um pouco do espírito compartilhado pela protagonista e por outras situações que rondam o filme. Mesmo que brevemente, ali estão representadas a inocência de uma criança, a perseverança da crença e a beleza da dádiva e da oferta, que cresce e floresce mesmo em meio à aridez de uma região que, há tempos, não conhece a chuva. “Eu não lembro, eu sinto”, conta o avô de Rosa, interpretado por José Dumont, em certa cena da primeira metade do filme. E ele continua: “A fé é o véu das nossas respostas, igual a sentença de um vagalume, a escuridão”. 

Pacientemente, Rosa Tirana parece preencher os contornos dessa fé. Recorre às estratégias da fábula para, com os olhos de Rosa, coroar a terra seca com uma espécie de esperança. Por mais que o discurso da fé e da religiosidade seja carregado de contradições – e, para o sertanejo, ganhe traços regionais que por vezes suplantam o cristianismo dogmático –, há valor, no filme, na escolha de uma simplicidade narrativa. Ao economizar palavras e explicações de situações alegóricas, em suma, simples, sobra espaço para a construção de uma poesia que não está apenas interessada no reforço ingênuo de um discurso de que fé move montanhas, mas que se atenta principalmente pelos sentimentos, aflições e sonhos daqueles que a têm. “Eu não lembro, eu sinto”, afinal, como disse o avô cego. Frase que denota, como diversas outras cenas do longa, uma maior valorização ao emocional do que à própria razão.

Nessa simplicidade, uma colorida e alegre festa de Bodocó convive com os seres de barro que circundam a câmera, memória do sofrimento e da morte que ronda a seca. Outra ameaça, a de um homem que finge levar Rosa para conhecer a santa que a criança tanto busca, é filmada sem rosto; enquanto é justamente o foco na face que traz humanidade e compaixão aos retirantes que a acolhem na estrada. Até os próprios cantos católicos, essencialmente lamentos em grande parte do filme, são ao fim substituídos por músicas de exaltação e coroação quando a rainha do sertão, Nossa Senhora Imaculada, surge num mar de crianças vestidas de azul.

É óbvio que ela traria a chuva – algo que já estava posto desde o início da jornada de Rosa. Entretanto, mesmo trabalhando com a recorrência de alguns recursos que frequentemente circulam no imaginário construído pelo e com o audiovisual brasileiro sobre o sertão, parece existir em Rosa Tirana uma dose de criação que vai além do clichê. Basta ver, a título de exemplo, a reiteração do símbolo da maternidade quando o diretor opta por representar tanto a mãe de Rosa, que morre no início do filme, quanto Nossa Senhora, essa mãe tão universalmente brasileira, com a mesma atriz. É com esse ato de fabular, mais do que necessariamente o de criar algo novo ou estabelecer uma evolução de situações e personagens, que o filme parece estar preocupado.

Certamente, ao optar pela simplicidade, o longa deixa outras coisas de lado. Carece subjetividade a própria personagem de Rosa, interpretada por Kiarah Rocha, assim como a outros personagens que habitam o sertão, que vêm e vão desempenhando funções ocasionais. Por outro lado, existe um esforço da direção – ora bem sucedido, ora nem tanto – de não cair nos riscos de uma estereotipação impostos pela escolha do simples e de reproduzir, por meio da trilha sonora, da fotografia e da direção de arte, a fantasia proposta pelo roteiro. Se esse fantástico exime o filme de suas problemáticas, há de se discutir. Mas é por meio dele que a fé sertaneja ganha, ali, delineamentos materiais e sensíveis. E há vigor nesta construção.

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