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Trabalho e(m) comunhão – Opy’i regua (2020)

24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Mostra Panorama

“As crianças, e nós todos que estamos aqui, estamos construindo a opy, mesmo nós sendo poucos, para fortalecer os nossos parentes em toda parte e através do fortalecimento deles nos fortalecemos também.”

Cacica Júlia Gimenes

Taquara e barro são os materiais usados na construção da Opy, mas são as mãos que se encarregam de moldá-la. Em Opy’i regua (2020), dirigido por Júlia Gimenes e Sérgio Guidoux, a câmera na mão nos guia pelo processo de criação da casa de reza da pequena Aldeia Guarani Som dos Pássaros, como a sombra que acompanha cada um dos trabalhadores que colaboram com a Cacica Júlia Gimenes. Mas mais do que o trabalho braçal, o que as imagens revelam é uma relação comunitária que transforma esse processo em algo de outra natureza.

O filme lida com vários significados que não estão exatamente dados. Se ele começa investindo nas palavras da Cacica durante a colheita da madeira, pouco a pouco ele vai deixando de tentar explicitar esses sentidos, abrindo mão de traduzir as conversas da comunidade. As palavras se tornam um segredo ao qual não temos acesso, nos colocando na condição de também abdicar de tentar compreender e seguir em frente através das sensações. 

Opy’i regua é o registro da partilha de experiência entre gerações, que se evidencia nas palavras da Cacica, que como uma diretora em cena guia as ações dos mais jovens, orientando-os e criticando o trabalho imperfeito quando necessário. A troca se materializa, também, no olhar da criança que, ao hesitar por um momento antes de pregar o bambu, olha ao seu redor observando como os mais velhos o fazem; ou na mãe que aponta ao filho um recipiente para carregar a terra até o carrinho de mão. 

São nas imagens das crianças encontrando suas próprias maneiras de colaborar que o curta-metragem ganha força. No riso compartilhado; no barro que é arremessado no bambu como uma brincadeira; ou na criança que corre ao redor da câmera enquanto o equipamento tenta acompanhar seu movimento. Preservar e renovar parecem se complementar dentro do objetivo de fortalecer a comunidade: se cabe aos mais velhos preservar as tradições da Opy, recai às crianças a responsabilidade de dar continuidade e renovação à cultura Guarani.

Diego Silva Souza Ver tudo

Diego Silva Souza é nascido e criado em Timóteo, no interior de Minas Gerais, e atua escrevendo sobre audiovisual em artigos e textos críticos. Graduando de Jornalismo na UFMG, fez parte do Júri Jovem da 23ª Mostra de Tiradentes, integrou a comissão julgadora da 2ª Mostra de Curtas Cinecubo e a curadoria do 9° Cinecipó – Festival do Filme Insurgente. Possui colaborações com a Zagaia em Revista, Cinética e Cine Festivais, além de comentar filmes na Mostra Cinema Permanente do Cine Humberto Mauro.

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