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Acalorar – Rua Ataléia (2021), Quintal (2015) e Alzheimer (2009)

Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte

Mostra Maria José Novais Oliveira – Nossa Atriz

Popularmente, é comum falar que, quando uma foto ou um vídeo é superexposto à luz, a imagem está queimada. Talvez essa seja uma forma um pouco estranha de começar a falar sobre Rua Ataléia (2021), novo trabalho de André Novais, considerando que todo o filme se passa no escuro. Tratando-se, contudo, deste filme, neste festival e em uma mostra de homenagem a Maria José Novais Oliveira, “queimar” não parece uma palavra que caiba.

Ainda que a ausência de luz seja uma característica primordial ao curta, em vários dos planos que o compõem, há também um pequeno ponto de iluminação que estoura na imagem. Rua Ataléia faz um exercício de capturar imagens na impossibilidade da escuridão, e são esses pequenos feixes milagrosos que permitem o registro dessas cenas que, sobretudo ao pensar neste como um dos últimos trabalhos de Maria José a ser lançado, se tornam monumentos.

Em Alzheimer (2009), a personagem de Dona Zezé filma para não se esquecer dos objetos de casa. Ela inspeciona a câmera de mão como algo estranho, antes de passar por objetos rotineiros do dia a dia, como fotografias, uma cama e um troféu. Doze anos depois, em Ataléia, a câmera filma para não a esquecer. A mão balança para encontrar o melhor enquadramento e a lente se afasta para encontrar o plano perfeito para guardar aquela imagem de Dona Zezé, encarando uma fonte de luz que inicialmente não está em quadro. A câmera pousa ali e perdura, hipnotizada por ela quase sobrenaturalmente. E talvez, seja mesmo sobrenatural, não é? Como a ventania que a faz flutuar em Quintal (2015) e seca instantaneamente as roupas que ela acabou de pregar no varal.

“Queimar” não parece uma palavra que caiba. Acalorar talvez nomeie melhor o papel da luz e da atriz no filme. O anúncio do próximo trabalho de Maria José Novais Oliveira, dirigido pelos filhos André e Renato Novais, tira onda desde o título: Nossa Mãe Era Atriz. E quer saber? Uma das grandes. 

Diego Silva Souza Ver tudo

Diego Silva Souza é nascido e criado em Timóteo, no interior de Minas Gerais, e atua escrevendo sobre audiovisual em artigos e textos críticos. Graduando de Jornalismo na UFMG, fez parte do Júri Jovem da 23ª Mostra de Tiradentes, integrou a comissão julgadora da 2ª Mostra de Curtas Cinecubo e a curadoria do 9° Cinecipó – Festival do Filme Insurgente. Possui colaborações com a Zagaia em Revista, Cinética e Cine Festivais, além de comentar filmes na Mostra Cinema Permanente do Cine Humberto Mauro.

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