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Dos desafios de se descolonizar o cinema – paralelos entre África e Brasil – Ouaga, Capital do Cinema (2000)

Semana de Cinema Negro de BH

Mostra Cinemas Africanos em Revista: As Origens do FESPACO

Ouaga, Capitale du Cinéma conta a história das origens do FESPACO – Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou – pelo olhar do diretor tunisiano Mohamed Challouf. Como o documentário mostra, no Fespaco é exibido o primeiro filme de ficção produzido em Burkina Faso, no qual uma população pode se ver e ouvir na tela pela primeira vez. “O cinema africano restaurou o espelho do povo, sua língua, sua cultura, apenas com um filme” relata o próprio Challouf sobre sua primeira ida ao festival e o impacto que o evento teve na cidade.

Entretanto, assim como outros diretores, Challouf passou a boicotar o evento após o golpe de 1987, quando o então presidente de Burkina Faso, Thomas Sankara, foi assassinado. Nos anos que se seguiram, o FESPACO torna-se cada vez mais um megaevento comercial e afasta-se da ideia original do festival. Como resposta, em 1999, Challouf visita Burkina Faso novamente, mas desta vez para documentar o festival e entrevistar seus criadores. 

Em 1987, o FESPACO celebrava sua 10º edição com o tema “cinema e identidade cultural”. Durante o evento de inauguração de uma “praça dos cineastas” e de seu monumento, o realizador Gaston Kabore enuncia o que se tornaria um prenúncio do que o cinema africano enfrentaria nas próximas décadas: 

“O tema da 10ª edição, cinema e identidade cultural, nos atravessa violentamente. A silhueta deste monumento, construído admiravelmente, nos faz lembrar do ataque antiaéreo. O perigo que a cultura africana enfrenta. O perigo virá cada vez mais pelo céu. Para além da dominação das nossas telas, a aparição das imagens virá pelo céu. Isso colocará nossa cultura em perigo se não fizermos algo imediatamente.”

Com esta fala, Kabore se refere à dominação cultural exercida por países europeus e pelos Estados Unidos em África. As imagens, que chegam pelo céu através das ondas e satélites, são mais um golpe do processo de colonização contínua do continente. 

Nas últimas cenas do filme, atrizes e realizadoras debatem com jovens alunos sobre o financiamento do festival e do cinema. Um deles argumenta que não entende porque gastar dinheiro com cinema sendo que parte da população do país vive em extrema pobreza. O argumento é compreensível. De certa forma, guardadas as devidas proporções, vivemos uma situação muito similar no Brasil de desvalorização do cinema nacional. A diretora brasileira Ana Carolina respondeu a iguais questionamentos durante sua entrevista no Roda Viva, em 1994: 

“Não existe no mundo nenhum cinema liberto do estado ou de mecanismos de proteção. E muito menos um cinema tão liberto quanto o nosso, solto no espaço, que nem mercado tem. Nos EUA não tem uma Embrafilme, mas o governo sabe que o cinema é a 5ª economia e que o cinema faz a cabeça do mundo. Ou a gente tem consciência de que a gente pode ser produtor ou a gente vai ter a amarga consciência de que somos consumidores. Compraremos.”

Na edição de 1999, com a escolha do tema “Cinema Africano e Circuitos de Distribuição na África” o debate volta-se às dificuldades de se produzir e distribuir filmes africanos. Ainda que encontrassem empecilhos para serem financiados, os filmes africanos circulavam minimamente em festivais europeus e americanos. Mas não em seu próprio continente. “É verdade que temos filmes, mas não temos um cinema” diz Kahena Attia, editora e frequentadora do festival desde seu início. 

A situação do cinema africano no fim do século é resumida com pesar pelo cineasta burquinense, Idrissa Ouedraogo:

“A crise que estou enfrentando é uma crise útil, porque ela me permite entender onde me encontro depois de todos esses anos. Os erros que cometi, o mal que fiz a outros diretores, àqueles que seguiram meus discursos e maneira de trabalhar.  Imagens que eram tecnicamente boas, histórias contadas agradavelmente… Mas que não eram 100% eu, porque, como te disse, eu tinha outro mercado em mente. Fazer minha autocrítica hoje, antes do 30º aniversário do festival, é importante porque a produção cinematográfica, especialmente na África negra, está sem fôlego. Diretores africanos terão dificuldades, estamos esgotados. Não nos faltam ideias mas falta lógica de produção. Nossa própria apropriação do que é o cinema. Como indivíduos, é claro, mas nossa individualidade vem do nosso continente, do país de onde viemos e nossa cultura que também é fundamental. Apenas o cinema trará algo puro e honesto. Porque veio de nós. Com uma liberdade criativa que não se alinha com a realidade do mercado. O problema do mercado é que ele nos atrai para horizontes que não nos aceitam. Nós aprendemos sua cultura, sabemos tudo sobre a Europa.  Mas eles não sabem nada sobre nós e isso não mudará amanhã. Não significa que nossos filmes não são bons, significa que essas pessoas têm um problema. Elas são ignorantes e deveriam preencher esse vazio. Não preciso provar que tenho cultura para provar que existo. Fiz isso por tanto tempo. Agora mudei de ideia. Decidi fazer algo de acordo com a minha dimensão. Dentro da economia do meu país, com meus amigos e camaradas. Mas minha dimensão de criador, cineasta, diretor… Isso não mudará em nada, porque a técnica é universal”. 

Ouedraogo ilustra uma problemática constante de países latino-americanos e africanos: produzir um cinema aos moldes dos festivais internacionais ou um cinema onde seu povo pode, de fato, se ver refletido. O dilema está no fato de que, muitas vezes, a segunda opção está fora da generosidade do financiamento europeu. Por isso a importância e também dificuldade de se criar um mercado nacional de produção e consumo de filmes. 

Em Ouaga, Capitale du Cinéma, Mohamed Challouf nos leva pela jornada da descolonização do cinema africano nas últimas décadas e evidencia os entrelaces entre a produção cultural de um país e sua organização política. Assim como no Brasil, tanto o cinema quanto o povo resistiram, resistem e resistirão aos golpes que nos ameçam. 

Iakima Delamare Ver tudo

Iakima Delamare é graduanda de jornalismo na UFMG, atua majoritariamente na pesquisa, crítica e produção cinematográfica. Como pesquisadora, tem em foco os cinemas indígenas e de quilombo. Como crítica, compôs o Júri Jovem da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes e a curadoria do 9º Cine Cipó, festival em que atua também como assistente de produção. Por fim, como realizadora, participou de produções audiovisuais como Nove Águas, curta dirigido por Gabriel Martins com a comunidade do Quilombo Marques, e Ela Viu Aranhas, de Larissa Muniz.

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