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Ver beleza para além do trauma – De um Lado do Atlântico (2020) e Irun Orí (2020)

Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte
Cine-Escrituras Pretas: Vivências afro-diaspóricas

I.

Descrever o que vejo, descrever o que ouço. Barulho do mar que há muito não visito. Três caravelas repetem-se em tela num recorte de imagem em preto e branco. Uma voz distante, captada numa frequência frágil: “tentando estabelecer contato”.

Esse texto é também uma tentativa de aproximação entre os filmes De um lado do atlântico (2020), de Milena Manfredini, e Irun Orí (2020), de Juh Almeida, ambos em exibição na sessão Vivências afro-diaspóricas da Mostra Cine-Escrituras Pretas da Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte. Os dois curtas, cada um a seu modo, experimentam narrativas da diáspora, expondo questões e perspectivas que se detêm entre os laços e rasgos do contato Brasil-África. Que mistérios habitam essa relação?

II.

Ao olhar para De um lado do atlântico, deduzo lacunas. O filme parece afirmar-se narrativa fragmentada em constante construção e entendimento. Seja a partir dos frames em negativo, planos pré-revelados de estátuas e edifícios, seja com os recortes que compõem as imagens e os sons do filme, justapostos nessa narrativa não linear, incompleta, desmembrada, o curta, com sua estética, ecoa a voz de sua narradora e lança perguntas ao mar – sem buscar conhecer todas as respostas.

Isso não quer dizer que, por outro ponto de observação, a obra não apresente algumas certezas. Nessa recorrente fragmentação, conjunção e montagem, por exemplo, é a Yalorixá Mãe Celina de Xangô que aparece inteira, filmada dos pés à cabeça, abençoando-nos com seu olhar firme e detido, e repetidamente, duas vezes duas, quando, de costas, é posta em tela junto ao cais do Valongo, uma das principais portas de entrada para os africanos escravizados em solo brasileiro.

Ao investigar a presença de Vênus nos arquivos da escravidão, Saidiya Hartman¹ pergunta: “Como se reescreve a crônica de uma morte prevista e antecipada como uma biografia coletiva de sujeitos mortos, como uma contra-História do humano, como prática da liberdade?”. Dentro de uma narrativa repartida, o que implica o gesto de revelar a imagem de Mãe Celina na inteireza? Afinal, enquanto a diáspora forçada caracteriza a experiência de pessoas negras no Brasil e em outras localidades, fragmentando histórias e influindo nas políticas de morte e genocídio à qual estamos submetidas, de que modo sobrevivem e se recontam² a fé, o afeto e a beleza?

III.

Do outro lado do Atlântico, moçambicanas trançam seus cabelos em Irun orí. Na costa brasileira, uma mulher cruza os fios de cabelo de uma criança. “Quanto de sua história seus dedos tocam enquanto trançam, no corpo dos fios, uma memória insolúvel?”, questiona a voz de Jamile Kzumbá no curta.

Interessado nos detalhes de cada cabelo e nos instrumentos para o trançado, sejam eles os pentes ou as mãos, o curta de Juh Almeida registra, por meio da poesia audiovisual, as conexões Brasil-África existentes em cada inconfundível arranhar de um pente no cabelo crespo. Com suas cenas, o filme traça os fios que ligam Bahia a Maputo, resgatando não só a ancestralidade e a resistência que a narração evoca em certo momento, mas a beleza, o riso e a afirmação das pessoas que enquadra.

Ao filmar pessoas de diferentes gerações – a neta que, no áudio, reclama com a avó que está puxando muito o seu cabelo, a criança que exibe e sacode os búzios das pontas de suas tranças -, Irun Orí ressalta o legado do gesto de trançar. Para além da fuga, do medo e da exclusão orquestradas pelo processo de escravização, opta pelo afeto. Não os ignora, de forma alguma, mas escolhe por fazer de sua narrativa possibilidade de acalanto.

IV.

Entre os mistérios, o contato com África pode operar transformações pessoais e coletivas, ressaltando as ressonâncias entre aqui e lá – vide nosso passinho nos pés de um nigeriano em NoirBLUE (2017), de Ana Pi. Ainda assim, vale lembrar, são mulheres da diáspora que respondem algumas das dúvidas propostas pelo filme de Milena Manfredini. Os trechos das falas de Grada Kilomba, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento reforçam os elos dessas pontes entre abismos³ e compartilham um segredo: assim como as rotas dos trançados resistiram a séculos de violência, algumas possíveis respostas podem já estar aqui.

¹ HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Tradução de Fernanda Silva e Sousa e Marcelo R. S. Ribeiro. Revista Eco Pós. Dossiê Crise, Feminismo e Comunicação, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, 2020.
² Devo agradecer a Lucas Mendes, da Emoriô, por compartilhar sua visão sobre o ato de recontar.
³ Sim, é uma referência a Pontes sobre Abismos (2017), filme e videoinstalação de Aline Motta. Como explica a sinopse, a obra “pretende discutir […] a noção de pertencimento e identidade em uma sociedade que ainda tenta um ajuste de contas com sua história violenta e as noções românticas de sua louvada miscigenação”.

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