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Pela vida depois do mar – Novo mundo (2020), Pattaki (2019) e Uma noite sem lua (2020)

Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte
Mostra Cine-Escrituras Pretas

“Tem um coisa passando no céu; algumas nuvens grossas a rodeiam; os não iniciados não enxergam nada.”¹

 – Sylvia Ardyn Boone

Novo mundo, de Natara Ney e Gilvan Barreto (2020); Pattaki, de Everlane Moraes Santos (2019); Uma noite sem lua, de Castiel Vitorino Brasileiro (2020). Três filmes de água. Três filmes de transe. Três filmes de espera. Eu diria ainda que são três filmes de ponte – entre sujeitas e territórios; mundos visíveis e invisíveis, passados e futuros (ou não-futuros). 

Três filmes que parecem perguntar, cada um à sua maneira: Será que a vida continua na água? Será que fora das fronteiras coloniais, que cercam corpos no concreto, na linguagem e em suas próprias peles, existe vida? 

Começamos pelo território paradisíaco, o dia ensolarado da Terra Sem Males. “Pra quem quer ver tá tudo aqui. O antes e o agora, o reinício e com certeza o fim.”, anuncia a personagem de Novo mundo. Para quem se dispõe a ver, ela diz sem muitos rodeios, a paisagem desta terra, deste Brasil, é banhada a sangue, e beleza nenhuma compensa os rumos que a história tomou. No filme, essa beleza – da fotografia, da paisagem, da mulher – é motivo de desconfiança. Desconfiança das promessas do novo mundo. Há um perigo rondando, sempre prestes a entrar no enquadramento, e a câmera, trêmula e fluida, segue a mulher com o mesmo olhar desconfiado, que fica entre a admiração pelos estímulos visuais excessivos da paisagem tropical e o incômodo gerado pelo perigo iminente da invasão. Essa câmera está sempre se aproximando e se distanciando, como se ela mesma tentasse fugir do destino daquele mundo.

Junto dessas margens cambaleantes, a personagem parece se articular numa performance circular, que ecoa a própria história viciada do mundo ocidental: chegada, exploração do território, interferência na terra, partida para posterior retorno e mais exploração. Aqui, no entanto, o ciclo se quebra, e quem explora essas terras é uma mulher negra que relembra, ou antecipa, as marcas coloniais em sua pele. Ela percorre a mata com seus poros, suas mãos, seus pés descalços. Ela performa para amaldiçoar a terra antes do ataque? Para costurar sua fuga antes do futuro/presente acontecer? Ou para abandonar a terra antes da invasão? Sabemos que ela sai pela água. Ela fabrica o seu próprio caixão com o pau-brasil que vai boiar no oceano, que vai levá-la para longe de toda aquela abundância tropical, que vai acordá-la do pesadelo chamado Brasil. “Deveria ser um sonho, um sonho ruim”, a narração de Zezé Motta conclui.

E se essa mulher despertasse à noite? E se ela acordasse num aquário, ou numa ilha, e a maré estivesse tão alta que o único destino possível fosse a enchente, a inundação completa do velho mundo?

Aqui entra Pattaki. A lua está cheia e a cidade alagada. Os prédios, os murais, as janelas e as ruas não passam de um reflexo torto de um mundo que já foi embora. Os olhos iniciados esperam notícias de Iemanjá, notícias da maré. Os moradores da ilha escura olham para o céu, olham para cima prevendo que a qualquer momento tudo vai ser água. Alguma coisa está no ar. Começo ou fim? Os muros precisam ruir para que as criaturas abandonem suas peles humanas e consigam respirar debaixo d’água. A água vem de todo lugar: da pia, do céu, do esgoto, do mar que cerca a ilha, do aquário que mantém os peixes cativos, dos corpos à beira de se transformarem em uma coisa outra e de fora do quadro – o próprio cinema está submerso aqui. 

Há algo de opaco nas imagens translúcidas de Pattaki. As pessoas são fantasmas à espera, guardiãs da noite, cativas das paredes que ainda as separam do mar. Não sabemos quem elas são a não ser por seus reflexos mutáveis. Suas subjetividades são diluídas – mas não apagadas – na água. Será isso a liberdade? Um enquadramento que não consegue defini-las, fechá-las pelas margens. Elas podem se mesclar na noite infinita, se derreter na enchente que virá – e ela virá. 

E se o mundo acaba, se o mar invade a cidade, Castiel vira peixe.

Sua transmutação abandona o vício dos ismos (especialmente relacionado ao binarismo de gênero e do ocidente de forma geral), para encarar o completo breu. A linguagem não importa mais, ela se mescla com a própria pele do mundo – da terra que se ruiu e das águas que tomaram o céu. Com sua macumba-encruzilhada, Castiel parece estar sempre chamando um fim – o fim deste mundo. O abandono do centro é um pressuposto para a aparição de uma vida muito mais interior, submersiva, que a superfície da terra colonial jamais daria conta. Ela convoca a destruição para a permanência da vida híbrida. 

A performance de Uma noite sem lua não tem tempo, não tem lugar. Ela acontece num espaço interior, fechado, que parece flutuar em uma outra dimensão. O que cerca esse espaço confinado é a água, o breu e a própria linguagem. Castiel, a performer macumbeira, está submersa nas palavras como se escorregasse por elas. As frases em si mesmas não precisam limitar nada. Seus simbolismos se esvaem à medida que são proclamados – a língua que nós (do mundo colonial, colonizadas) falamos não dá conta de tudo que sua dança transmutada implica. Suas imagens estão sempre à beira de um precipício, podem cair num buraco negro a qualquer momento e nos sugar junto, nos puxar de forma afetuosa e violenta para dentro desse cosmos preto-queer-transmutado. Entrar em Uma noite sem lua é mergulhar no mar. Podemos apenas sentir a densidade da água e o som abafado que vem da realidade de fora, tateando por seus estímulos sem certezas para nos guiar.

Há nos três filmes um fluxo de texturas que comunicam pele e mundo; pele e terra. A água é, ao mesmo tempo, desgraça e bênção, vida e morte. Ela prevê um fim para dar vazão a outras pulsões, a outras formas de existir implicadas numa mistura completa entre corpo e água; numa absorção do tempo enquanto uma circularidade que assuma os erros do passado e procure os possíveis pontos de fuga que quebrem o ciclo amaldiçoado. No fundo do mar é breu e a vida está em cada partícula do oceano – mesmo que nem sempre consigamos enxergá-la.

¹ Tradução minha. Trecho retirado do texto Talking Art as the Spirit Moves Us, de bell hooks (1995), citando Sylvia Ardyn Boone no livro Radiance from the Waters, que se refere a um provérbio popular do povo Mende, de Serra Leoa.

lamiramuniz Ver tudo

Larissa Muniz atua nas áreas de pesquisa, montagem, realização, fotografia e crítica/curadoria. Integra o grupo "Poéticas Femininas, Políticas Feministas'', da UFMG, e tem se dedicado a estudar modos de realização feminista no cinema e nas artes visuais.
Dirigiu os filmes “ela viu aranhas” e “eu vi nos seus olhos, da janela, eu vi, que era o fim”.

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