Ir para conteúdo

Engolir as palavras e a história – Uma homenagem a Sarah Maldoror

Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte

Cinema, negritude e poesia: Uma homenagem a Sarah Maldoror

“Noites sem nome

noites sem lua

em que eu gostaria

de poder não mais duvidar

tanto me obceca esse desgosto

uma necessidade de evasão”

Há noites, de Léon-Gontran Damas

Sarah Maldoror corre com o vento. Ela quer abraçar os campos infinitos com sua câmera, filmar os detalhes pequenos e grandes, junto das palavras pequenas e grandes. Muitas vezes, no caminho, ela para. Ela para e conversa com Aimé Césaire, com Léon G. Damas, com Léopold Senghor, com as meninas guianesas que só conhecem poetas franceses. Ela para e assiste às pessoas assistindo as palavras históricas de Césaire. 

Et les chiens se taisaient, d’Aimé Césaire (1978); Aimé Césaire, le masque des mots (1987); Léon G. Damas (1984). 

Quero pensar esses três filmes como um único fluxo poético, um continuum do projeto artístico histórico de Sarah Maldoror. 

Fragmentos para sentir parte da obra dessa cineasta pan-africanista, ativista da Negritude, amante do jazz e da poesia.

Há muito nesses três filmes que cruzam múltiplos caminhos artísticos para a criação de uma contra-história com contraimagens¹. Há camadas e camadas acumuladas num fluxo de vida-política-poética que deslizam na tela junto das palavras dos poetas que anseiam a revolução. 

“Quero um mundo nu de universo sem selo.”, termina o rebelde de Et les chiens se taisaient.

Frames de Et les chiens se taisaient, d’Aimé Césaire (1978)

Dizer a palavra é ato de rebeldia. Há qualquer coisa no clamar teatral, na voz que agita o corpo e levanta o punho, que chamam por um mundo desconhecido, natural, nu. Um mundo no qual a câmera de Maldoror pode correr livre pelos campos verdes e pelas águas raivosas.

Ela encena os discursos do rebelde no subsolo escuro de um museu e depois escapa para um cenário sem limites. A imagem corre provocada pelas palavras de angústia. A fuga é para um paraíso sem margens. 

Um mundo sem nome? Um mundo naufragado? Um mundo cujo quadro pode correr solto, sem amarras da terra e da linguagem?

“Não devemos nos submeter a essa língua, devemos submetê-la. É preciso fazer com que ela se torne dócil ao nosso gênio.”, diz Césaire para Maldoror em Aimé Césaire, le masque des mots.

Frames de Aimé Césaire, le masque des mots (1987)

Falsas dicotomias: Política versus poesia; discurso versus experiência; sujeito versus coletividade; dizer versus sentir.

Dicotomias falsas porque tudo converge num único ser poeta-político. Aimé Césaire, mas também a própria Maldoror. A Negritude e os/as rebeldes que ousam brigar com a língua colonial, que ousam enfrentar o aprisionamento, que buscam a ação no fora de campo.

Criar a si mesma(o) pela palavra. Criar a luta. 

De novo, fugir do enquadramento fixo para buscar a inquietação da câmera na mão. Rimar com a fluidez da imagem em movimento. Fugir do centro do quadro. 

“O frenesi dos olhos, o frenesi das mãos, o frenesi dos pés das estátuas.”² – Léon G. Damas 

Frames de Léon G. Damas (1984)

Léopold Seghon fala que a poesia de Léon G. Damas é “uma imagem ou um conjunto de imagens análogas, melodiosas e ritmadas.”

Ele poderia estar falando sobre os filmes de Maldoror. Rigorosos e fluidos. Conflituosos em suas rimas visuais. 

Do plano fechado do rosto anônimo que deveria entrar para a história com H maiúsculo ao rio que nunca para de vazar mata adentro. 

Por que as crianças não estão sendo ensinadas sobre os poetas guianeses? Por que elas não conhecem Damas? Por que elas não gostam de poesia?

Embarcar os olhos com a câmera-vento e procurar pela próxima palavra de liberdade. Confrontar a História.

“(…) eu considero que sua abordagem às histórias que ela contava era definida por um sentimento de generosa abertura. O seu olhar para o mundo sempre foi também um ato de escuta.”, escreve Yasmina Price (2021). 

Sim, a construção de Sarah Maldoror é tão generosa que esses filmes-poesia quase parecem ser co-dirigidos com os poetas retratados. Diálogos em processo.

A cineasta que não apenas dirige, mas responde aos versos e às provocações de revolução em sua própria linguagem: o cinema. O cinema colado na poética, colado na política, colado na história, colado na vida e na sobrevivência.

Colado porque um campo não se separa do outro. O rosto em primeiro plano falando sobre sua vida política não se separa da natureza em transmutação.

As palavras para Aimé Césaire são o próprio universo – seu modo de existir no mundo, de comunicar com sua terra, de criar seu próprio “eu”. 

As imagens parecem ser para Maldoror coisa similar. Há qualquer coisa de um encanto puro pelos pedaços de vida que ela colhe e monta junto das palavras dos outros. Há qualquer coisa de fugaz, de assumir uma máscara estética que quer ouvir a poesia de liberdade enquanto corre para um rio, em direção ao verde infinito e à história que está sendo construída à medida que se filma. Filmar mais para continuar (re)construindo. Quem sabe um dia o cinema e o corpo livre conseguem alcançar esse fora de campo invisível. 

Maldoror foge do aprisionamento com a câmera que quase se solta da mão, sozinha, para engolir o vento em alguns instantes de liberdade. Capturar o indizível. Torná-lo um pouco mais dizível no cinema. 

¹ Ver texto “MULHER COM UMA CÂMERA-ARMA: SOBRE O TRABALHO DE SARAH MALDOROR”, de Yasmina Price, tradução publicada no catálogo da Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte (2021).

² Trecho do poema “Ils sont venus ce soir” (Eles vieram à noite), de Léon G. Damas (1972).

lamiramuniz Ver tudo

Larissa Muniz atua nas áreas de pesquisa, montagem, realização, fotografia e crítica/curadoria. Integra o grupo "Poéticas Femininas, Políticas Feministas'', da UFMG, e tem se dedicado a estudar modos de realização feminista no cinema e nas artes visuais.
Dirigiu os filmes “ela viu aranhas” e “eu vi nos seus olhos, da janela, eu vi, que era o fim”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: