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Cenas de fé, imagens de cuidado – Mostra Afetos e Partilhas

5 Fitas (2020), Candombe do Açude (2020), Movimento (2020), Nascente (2020), Olhos de Erê (2020)

Semana de Cinema Negro de BH

Mostra Cine-escrituras Pretas – Afetos e Partilhas

Em Movimento (2020), Gabriel Martins dá notícias da família a um amigo. Enclausurados pela quarentena, Gabito e Rimenna se dedicam aos cuidados da bebê recém chegada. Pequena e frágil como todo bebê, Teresa pede calma, paciência, silêncio. Teresa mama e faz cocô. “Está na fase de fazer uns barulhinhos, descobrir os sons”. Rimenna parece cansada. Os planos são estáticos. Calmos. É uma rotina cansativa, repetitiva, intensificada pela solidão e enclausuramento da quarentena. 

Teresa traz, também, alegria. Seus olhos são brilhantes e cheios de vida. É a cara do pai e da mãe ao mesmo tempo. Teresa pede também movimento, de cuidado, de carinho. Com a filha no colo, Gabito dança ao som de Magnólia, de Jorge Ben. Dança devagar, com movimentos suaves, no ritmo que a filha pede.  Teresa é vida e um olhar para o futuro num momento em que o futuro se torna amedrontador. 

No intervalo dos mamás, Rimenna benze a casa, defuma o altar onde está acesa uma vela. 

Dentre todas as maneiras possíveis, Gabito encerra o filme com uma série de vídeos de pessoas negras dançando. A vida pulsando pelos seus corpos, desde um bebê a uma senhora.

É esta mesma ideia de movimento que foi traduzida por Safira Moreira em Nascente (2020). Safira, com a câmera em mãos, se olha no espelho por um tempo, em silêncio. Sua imagem é atravessada pela de sua mãe, Dona Angélica, num gesto que nos diz que para se dizer quem se é, deve-se dizer de onde veio. Dona Angélica cruza o corredor a caminho de seu altar, onde cumpre com seus ritos e acende uma vela. Uma terceira mulher, irmã de Safira, surge balançando o incenso e defumando a casa. Num movimento contínuo e pendular, ela nos leva até a quarta mulher, também sua irmã, que com um ramo de folhas na mão absorve a fumaça e dança, cobrindo o chão da casa de folhas verdes. Folhas que limpam, curam e protegem.

Ao fim da performance, sem nunca quebrar o plano único, Safira ressurge no espelho, cercada pelas irmãs e Dona Angélica, que agora segura no colo o pequeno neto Ayomi. 

Safira e Gabito falam de um movimento geracional, de um fluxo contínuo da vida, onde sempre haverá para onde seguir. É um fluxo onde os saberes são passados de mãe para filha, de vó para neto, e assim por diante. 

Em Olhos de Erê (2020), o pequeno Luan nos avisa que “hoje o vídeo não vai me aparecer. Só vou mostrar como que é aqui na casa da minha avó”. Luan é bisneto de Mãe Efigênia e a “casa da sua vó” nada mais é do que o Terreiro de Umbanda do Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango, um dos mais importantes terreiros da região metropolitana de Belo Horizonte. 

Pelos “olhos do erê” conhecemos o terreiro, o jogo de búzios da vó, as roupas, instrumentos. Luan domina os nomes de origem africana do candomblé – a afrobetização, como consta na sinopse do filme. Na parede coberta de chita, em posição de destaque e respeito, dois quadros são descritos por Luan: “minha vó” e “o caboclo”, entidade central do Manzo. 

Ao passar pela cozinha, Luan vê sua avó conversando com duas comadres. Ele se aproxima e as apresenta à câmera assim como vinha fazendo com tudo ali presente no terreiro. “Dá oi pro meu canal, gente”. Mãe Efigênia, interrompida, inicialmente se zanga com o neto mas não deixa de dar um aceno à câmera. Saindo da cozinha, Luan acalma seu público: “gente, minha vó tá com raiva de mim só porque eu filmei ela, nada de mal”.

Durante a pandemia da Covid em 2020, o Quilombo do Açude é fechado para visitantes, de forma que a Festa do Candombe é realizada somente pela comunidade pela primeira vez em mais de 20 anos. A matriarca Dona Mercê, avó do diretor Danilo, lidera os ritos de devoção à Nossa Senhora do Rosário. 

Ali no meio, cercada pelos tambus e sua família, Dona Mercê dança energicamente, os movimentos um pouco travados por um AVC.  Ao centro da roda as crianças, antes tímidas aos olhares dos mais de mil forasteiros que a comunidade recebe anualmente, dançam pela primeira vez. As mulheres da comunidade, que antes se concentravam nas tarefas de receber os que vêm de fora, testemunham poder de fato participar da roda e da festividade esse ano. 

Em 5 Fitas (2020) os pequenos Pedro e Gabriel escutam sua avó Paulina contar apaixonada sobre as celebrações do Senhor do Bonfim. Decidem ir escondido à procissão para amarrar fitas e fazerem pedidos ao santo. Deixam para traz uma Vó Paulina preocupada que corre às imagens de seu altar para pedir ao Senhor do Bonfim que trouxesse seus netos de volta. 

Os meninos estão vivendo sua própria aventura pela descoberta da fé. Após se separarem, Pedro pede a um vendedor uma fita para pedir ao santo que encontrasse seu irmão. O vendedor lhe ensina sobre o sincretismo pelo qual o Senhor do Bonfim se iguala a Oxalá. É ao orixá que Pedro recorre até reencontrar Gabriel e retornarem à sua avó.

É o ciclo retratado por Safira, no qual os espíritos estão ligados por coisas mais do que vemos na matéria. Algo que preenche seus corpos e os faz seguir.  Assim como Luan, Pedro e Gabriel aprendem através de sua avó sobre fé e cuidado. Os pequenos erês se tornam guardiões de sabedorias grandiosas, passados de geração em geração. Assim como as crianças do Açude sentem em seus corpos a música do batuque e dançam, os erês seguem guiados pelos movimentos dos mais velhos. 

Iakima Delamare Ver tudo

Iakima Delamare é graduanda de jornalismo na UFMG, atua majoritariamente na pesquisa, crítica e produção cinematográfica. Como pesquisadora, tem em foco os cinemas indígenas e de quilombo. Como crítica, compôs o Júri Jovem da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes e a curadoria do 9º Cine Cipó, festival em que atua também como assistente de produção. Por fim, como realizadora, participou de produções audiovisuais como Nove Águas, curta dirigido por Gabriel Martins com a comunidade do Quilombo Marques, e Ela Viu Aranhas, de Larissa Muniz.

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