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Carta aberta ao Surreal16 Collective

Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte
Surreal16 Collective, Um novo olhar para o Cinema Nigeriano

Olá, pessoal

Escrevo da diáspora. Mais precisamente, do Brasil, país que provavelmente se assemelha à Nigéria em alguns aspectos, como pude notar pelos curtas que assisti durante a Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte. Programada pela professora e pesquisadora Janaína Oliveira, a mostra Surreal16 Collective, Um novo olhar para o Cinema Nigeriano reuniu os filmes Brood (2017), Digital Love (2018), e Rehearsal (2021), de Michael Omonua, Visions (2017), de Abba Makama, C.J. Obasi e Michael Omonua, e Hello, Rain (2018), de C.J. “Fiery” Obasi.

Assisti-los é, pensei comigo mesmo, lidar tanto com uma certa quebra de expectativa quanto com uma inerente estranheza. O que é ótimo, por sinal. Descolonizar a visão significa também olhar para essas produções entendendo que a diversidade de abordagens, temáticas e estéticas pode sim caracterizar a produção africana, num contexto mais geral, e nigeriana, para além de Nollywood, como o texto de Janaína presente no catálogo da Semana bem demonstra.

Pois acredito que, daqui, ainda olhamos para a África com certo enviesamento. E digo isso pensando em algumas pessoas não-negras, que desconhecem ou fingem desconhecer a pluralidade do continente, em alguns pretes, que ainda olham para além do Atlântico buscando uma África idílica, mítica e congelada no tempo, e nas minhas próprias percepções e ideias, que ainda conversam pouco com os cinemas produzidos aí. Resta-me lidar com a estranheza e fazer, da surpresa, motor para algo que ainda não sei.

Por isso estou me abrindo nessa carta. Por acreditar que, assim como eu, os cinemas negros daqui podem também trocar demais com vocês. Por ainda assumirmos uma produção que se posiciona contrariamente às imagens de violência e estereotipação que foram feitas sobre nós, percebo existir uma dificuldade de abordar, no cinema, a multiplicidade e a própria contrariedade de nossa existência negra no país. O que é justificável, visto a massiva e industrial produção de narrativas que nos assolam. Mas até quando a armadilha da representatividade vai travar as discussões importantes que precisam ser feitas? Quando vamos conseguir fazer críticas sem muitos não me toques, de fato, construindo uma comunidade atenta e aberta ao diálogo construtivo? Me faço essas perguntas pensando na irreverência com a qual enquadram a Nigéria e as personagens dos curtas exibidos, expondo situações que, no mínimo, me trazem aquele risinho de perspicácia no rosto. Não existe, nessas obras mencionadas, medo ou problemas em expor as contradições do país de vocês, criticando quando é necessário fazê-lo, debochando quando apenas a crítica não dá conta do recado.

Ora, o que é aquela encenação em Rehearsal senão puro e refinado deboche? Tudo pra mim o modo como são construídas e retratadas as encenações dessa escola de pilantras neopentecostais. Me interessa o modo como o filme vai direto ao ponto, sem rodear, brincando com as falas perfeitas, com as roupas em cores e estilos alinhadíssimos, com os ensaios coletivos e, principalmente, com as gags que expõem o ridículo. Piada de alto nível, sabe, propositalmente gravada no National Theatre Station, principal centro de artes cênicas da Nigéria. Pois, tal como um teatro, está ali montado o palco do absurdo, com personagens que não apenas ensaiam entre si, mas que, pelos enquadramentos e situações, mostram-se para a gente, compartilhando um segredo com o público. “Mesmo quando estiver sofrendo, apenas sorria”, como alguém disse ao fim do curta.

Vejo, ainda, uma finesse em retratar o sofrimento e a violência, temas cheios de complexidades. De cara, em Visions, vocês dão a letra, ao fazer um homem fotografado perguntar à outra protagonista, interpretada por Valerie Dish: “O tema da sessão de suas fotos é o apocalipse?” O homem brinca pela escolha da jovem em fotografá-lo em frente a um ambiente bem surrado, para depois desenrolar a narrativa dessa conversa pra um rumo completamente inusitado. Paradoxalmente, as fotos ficaram lindas.

A violência vai ser também problematizada em Hello, Rain, sendo encarada, no curta, como o produto de perucas confeccionadas por uma mistura entre magia e ciência num plano de cura e esperança que saiu pela culatra. “Como a nação que tentávamos melhorar, nos tornamos o inverso. Em vez de dar, nós tiramos”, explica Rain, logo no início do filme. Para além da abordagem futurista do filme, presente no poder dessas perucas extravagantes, há também a exploração de contradições fundantes que, acredito, conformam a própria experiência da Nigéria enquanto nação. Ou seja, o filme não tem receio em abordar a corrupção, a brutalidade e o cinismo do país, nem de assumir uma posição contrária a tudo isso, empreendendo uma luta que nem mesmo vocês, seja como coletivo de cinema, seja como cidadãos, sabem se vão vencer. Entretanto, mesmo nessas incertezas, há algumas demarcações que acho geniais. Afinal, enquanto as mulheres estão lá resolvendo a porra toda, o único homem personagem do curta está pleno dormindo.

Acho que é disso que estou tentando falar. Não tão direto quanto vocês, admito. Por isso utilizo um termo de um amigo também do Zanza, Diego Silva Souza, que entende a estranheza dessas produções como uma espécie de “contragolpe”. Roubo as palavras dele aqui: “Minha relação com os filmes (e com a forma como eles estavam programados) se deu muito nessa coisa de parecer que todo mundo ali está prestes a levar um ‘golpe’. E, de certa forma, esses filmes são ‘contragolpes’, seja por expor sem receio as contradições que eles carregam, como também por se apropriar dessas linguagens para fazer coisas totalmente ‘estranhas’ a um cinema de Nollywood.”

E isso está em Brood, nesse filme onde a gente não saca a temporalidade, não entende o espaço e nem tem certeza se é uma lembrança ou se está acontecendo no ali, no agora, mas que, de certa forma, compartilhamos o sentido, já que a DR é uma coisa tão universal. Mesmo considerando todas essas ditas incoerências, uma mão ainda ousa atravessar realidades para tocar o rosto do cara bolado. Esse afago o acalma, nos acalmando também.

Só pra não dizer que não falei das flores, essa quebra de expectativa também funciona em Digital Love, positivamente: afinal, aqui, o amor digital não parece ser tão ruim ou problemático quanto em outras produções futuristas. Pois, em tempos de pandemia, o amor digital que tá rolando no mundo de cá não basta não, viu.

Enfim, me divaguei. Espero que a divagação tenha feito sentido. E espero que as produções de vocês continuem atravessando o oceano em nossa direção. De uma forma ou outra, estarei aguardando.

Abraço grande,

Gabriel Araújo

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