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Antônimo de alvo – 23 Minutos (2020) e Calmaria (2020)

Semana de Cinema Negro de BH

Mostra Cine Escrituras Pretas – Gritos e Fabulações de Cura

  

Seguir em frente com nossas vidas quando o mundo ao redor quer tornar essa tarefa cada vez mais difícil. 23 Minutos (2020), de Rodrigo Beetz e Wesley Figueiredo, e Calmaria (2020), de Leonardo Cata Preta, são filmes que se arriscam em lidar com o luto na tela, quando o mundo fora dela já é um lembrete constante da política de morte praticada no Brasil. Cinema pode ser fuga, pode ser refúgio, mas pode também ser confronto, uma forma de expelir alguma coisa. 

Em 23 Minutos, somos apresentados a um dia normal e cansativo na vida de três jovens da periferia de Ribeirão das Neves. Ora acompanhamos o trabalho dos personagens de Nik (Nikolas Oliveira Costa) e Def (Daniel Filipe de Lima) em uma oficina de carro, ora vemos a procura de outro jovem, interpretado por BPO (Bryan de Oliveira), por um emprego, vagando pela cidade a distribuir currículos. A câmera é discreta, sempre estática, parece estar ali como testemunha do dia a dia deles. 

Existe uma cumplicidade entre os três que transparece na tela, não precisam falar muito para se entenderem, estão na mesma caminhada – Nik e Def até completam as falas um do outro. E apesar dos pesares do cansaço, no breve momento em que os três estão juntos, a conversa é regada de sorrisos que não se repetem quando estão sós. Sozinhos, os sorrisos dão lugar a uma seriedade de quem lida com suas agruras em pensamento. O único momento em que temos acesso a elas é quando Nik ajeita pacientemente as ferramentas antes de terminar o expediente e recorre à música: “Eu não sei se vou aguentar mais dez anos”, diz a letra. 

A partir deste momento, a imagem deixa de contemplar o trabalho e dá lugar às luzes estroboscópicas azuis e vermelhas. As cenas de violência chegam ao cair da noite, de forma brusca, após um dia de trabalho. A câmera antes estática passa a correr, como o personagem de BPO que tenta fugir de quem nós nunca vemos de forma direta, mas ainda assim sabemos quem é.

Na cena final, quando Def e Nik estão no carro lamentando o assassinato do amigo, a aposta é no diálogo. Em meio ao desabafo, eles repetem a estatística que dá título ao filme – e talvez estejamos cansados de ouvi-la. Mas não mais cansados do que estamos com o luto de perder pessoas periodicamente. Cinema pode ser fuga, pode ser refúgio, mas pode também ser confronto. Pode ser demarcação.

Calmaria, por sua vez, investe nos gestos do pós-trauma. Como o título denuncia, o silêncio é predominante e é a performance de Preto Amparo que nos guia pelos danos causados pela perda. Se a presença da violência surgia visualmente em tela de forma breve em 23 minutos, aqui nós só vemos suas consequências, seja a recusa de um diálogo mais direto ou a crise com a viatura de brinquedo.  

O luto da família não é partilhado, como fazem Nic e Def, pelo contrário, ele é fragmentado a partir de uma tensão crescente, materializada em tela por uma dessaturação cada vez mais forte das cores. É quando os personagens se cansam de guardar tudo para si que eles finalmente falam. Falam não, gritam. E, ainda assim, a performance de Amparo parece me alcançar mais do que qualquer palavra dita durante o filme.

Os dois curtas manejam diferentes elementos para tentar converter em tela o pesar da perda, mas também se encerram com personagens que optam por ir na contramão. Cada um a sua forma, reforçam uma ideia que até a nossa língua, numa dessas estranhas polissemias idiomáticas, parece querer dizer: preto é antônimo de alvo.

Diego Silva Souza Ver tudo

Diego Silva Souza é nascido e criado em Timóteo, no interior de Minas Gerais, e atua escrevendo sobre audiovisual em artigos e textos críticos. Graduando de Jornalismo na UFMG, fez parte do Júri Jovem da 23ª Mostra de Tiradentes, integrou a comissão julgadora da 2ª Mostra de Curtas Cinecubo e a curadoria do 9° Cinecipó – Festival do Filme Insurgente. Possui colaborações com a Zagaia em Revista, Cinética e Cine Festivais, além de comentar filmes na Mostra Cinema Permanente do Cine Humberto Mauro.

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