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Uma seleção para um mundo em chamas – LONA + Rede Minas

Seleção:

Cão Maior (2019), de Filipe Alves
A live delas (2020), de Yane Mendes
INSTITUIÇÃO_INTUIÇÃO (2020), de Ana Pi
Brooklin (2019), do Coletivo CineLeblon
Papagaio verde (2017), de Anderson Lima

* Os filmes serão exibidos pela Rede Minas nesta sexta, 30 de julho, às 23h. Saiba mais no site do programa Faixa de Cinema. Curadoria: Gabriel Araújo / Produção: Cris Araújo / Realização: LONA – Mostra Cinemas e Territórios e Rede Minas.

A dissidência sempre decorre de uma ruptura do continnum temporal¹

No último sábado, há quase uma semana do início dessa sessão programada numa parceria entre a LONA – Mostra Cinemas e Territórios e a Rede Minas, a imagem de Borba Gato queimava em São Paulo.

Durante o dia de protestos contra o genocida no Planalto, por vacina e em luto pelos mais de 550 mil mortos pela Covid-19 em solo brasileiro, um grupo autointitulado Revolução Periférica jogou pneus, um líquido inflamável e ateou fogo à estátua localizada na Avenida Santo Amaro. Num mundo onde a imagem chega, muitas vezes, antes da própria palavra, o registro impressiona: uma coluna de labaredas e fumaça negra que se ergue aos céus da capital paulista, consumindo – pelo menos naquele sábado, pelo menos naquele momento – a representação de 13 metros de altura de um colonizador.

Descrito como “desbravador” pelos verbetes biográficos, Borba Gato foi responsável pela morte e escravização de inúmeras pessoas negras e indígenas durante o colonialismo brasileiro. O mundo que conhecemos, entretanto, cujos códigos e modus operandi permanecem capturados por uma elite branca e escravagista, alçou-o à categoria de herói, concedendo-lhe representação e dignidade não apenas nos livros de história, mas na materialidade do espaço público.

“É preciso mandar os malditos embora”, escreveu o curador e antropólogo Hélio Menezes em coluna na Folha de S.Paulo, publicada em 19 de junho de 2020, quase 1 ano antes da ação deste último fim de semana. 

Destruição como performance generativa de uma leitura abolicionista para o mundo²

Tomo emprestadas as colocações de Jota Mombaça e Musa Michelle Mattiuzzi para repercutir não só os fins dos mundos que cotidianamente vivenciamos – o assassinato da juventude preta pelas mãos da polícia, a fome que volta a assolar o Brasil, o ecocídio que promovemos continuamente no planeta (“É preciso adiar o fim do mundo para sempre poder contar mais uma história”³, nos lembra Krenak) -, mas para sonhar com o fim que precisa acontecer: “a destruição do mundo que conhecemos como possibilidade de imaginação política”⁴.

Essa sessão representa, portanto, faíscas para acelerar essa combustão. Afinal, todos os filmes, cada um a seu modo, lidam com seus próprios processos de fins – seja a estrela incandescente que se aproxima da Terra em Cão Maior (2019), seja o toque de recolher imposto pela Guarda do Estado Verdadeiro em Brooklin (2019). Os curtas, realizados por pessoas negras e oriundos de diversas regiões do país (e de fora dele), não apenas localizam os fins de mundo a que estamos submetidos, como articulam diferentes formas de lidar com essas realidades.

Em Cão Maior (2019), de Filipe Alves, essa lógica se dá pelo afeto. O curta, produto de uma disciplina do curso de audiovisual na Universidade de Brasília (UnB), gira em torno de um acontecimento meteorológico: a aproximação de uma estrela à Terra. Quanto mais próxima ela está, mais quente o planeta fica. No filme, lidar com esse calor é também lidar com a forma pela qual os personagens se deixam levar por experiências de amizade, afeto e amor.

Enquanto Cão Maior centra esse afeto no romance, A live delas (2020), de Yane Mendes, o reposiciona no campo da comunidade. Só a sofrência de uma live é capaz de nos lembrar, em meio a uma pandemia, quem somos e com quem podemos contar. Aquilombar é estratégia de sobrevivência, assim como uma festa pode ser encarada, principalmente nas periferias brasileiras, como sinônimo bem-vindo de vida.

A pandemia também aparece nas reflexões suscitadas por INSTITUIÇÃO_INTUIÇÃO (2020), filme da bailarina e cineasta Ana Pi. Ana coloca o seu corpo em cena, articulando a bidimensionalidade e a insuficiência das telas que transmitem a experiência de uma vida-a-distância para propor, em si mesmo, um experimento. “Como não valia me explodir de gritar de ódio”, Ana Pi nos conta na sinopse do curta, “eu tentei canalizar energias antagônicas e esculpir uma pedra-coração”.

Brooklin (2019), do Coletivo CineLeblon, coletivo de cinema de quebrada da Região Metropolitana de Belo Horizonte, recorre à distopia como metáfora para o que pode acontecer, para o que já ocorre. Num regime totalitário, um grupo de jovens se recusa a baixar a cabeça. Sua resistência é a pólvora não só para a destruição daquele sistema, mas para a insurgência de nosso próprio país.

Por fim, Anderson Lima, com Papagaio verde (2017), vislumbra o futuro que é coletivamente construído nas diversas ocupações do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). Tanto pelas interseções que ocorrem fora da tela – o curta foi produzido na Ocupação Izidora como resultado de uma oficina de alfabetização audiovisual do Cinecipó, festival de cinema mineiro -, quanto pelo que está acontecendo dentro dela. Pois é a pergunta de uma criança que ressoa, daqui, para os demais filmes da sessão: – Livre… Alguém é livre dentro de uma gaiola, Dona Creusa?

Eu não mando nesse mundo / Nem no meu vai ter chefia⁵

A estátua de Borba Gato continuou inteira após a coluna de fogo que a consumiu.

Na segunda-feira, 26 de julho, foi noticiado que um empresário – cujo nome não foi revelado – se dispôs a doar o dinheiro necessário para restaurar o monumento. Na quarta, 28, foi decretada pela justiça de São Paulo a prisão temporária de Paulo Galo, que participou do ato que incendiou a estátua, e de sua esposa, Géssica de Paula da Silva Barbosa, que não estava na manifestação.

Destruir o mundo que conhecemos é exercício árduo e contínuo.

Que, em meio aos fins que nos impõem, labaredas continuem consumindo mundos em ruínas.

Que a utopia resista.

¹ BONA, Dénètem Touam. Cosmopoéticas do refúgio. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2020. p.36
² MOMBAÇA, Jota Mombaça; MATTIUZZI, Musa Michelle. Carta à leitora preta do fim dos tempos. In: SILVA, Denise Ferreira da. A Dívida Impagável. São Paulo: 2019. p.17.
³ KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
⁴ MOMBAÇA, Jota Mombaça; MATTIUZZI, Musa Michelle. Carta à leitora preta do fim dos tempos. In: SILVA, Denise Ferreira da. A Dívida Impagável. São Paulo: 2019. p.17.
⁵ Trecho de “Toque de São Bento Grande de Angola”, música de Paulo César Pinheiro.

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