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Sobre os olhos-diário

Uma conversa entre À beira do planeta mainha soprou a gente, de Bruna Barros e Bruna Castro (2020)

e Teko Haxy: Ser Imperfeita, de Patrícia Ferreira e Sophia Pinheiro (2018)

6ª Mostra de Cinema Feminista

Frame de Teko Haxy (2018)

Duas diretoras dividem a câmera e o papel de filmar. O olhar de uma, na função de atriz/personagem, tem sempre uma interlocutora direta, com nome e função específica no filme – a da realizadora. A diferença é que, nesse papel de filmada, nenhuma delas deixa de filmar também. Nessa relação circular, o olhar sempre retorna.

O olhar sempre retorna, mas nesses dois filmes-diários, videocartas, experimentos de encontro, a troca implicada em olhar (se olha para algo, algo te olha de volta?) é evidenciada no dispositivo da câmera na mão, solta, despretensiosa, que busca seus pontos de interesse – nos afetos, nos conflitos, nas banalidades. 

Em À beira do planeta mainha soprou a gente, o filme só existe a partir de uma relação prévia de afeto romântico. As Brunas parecem se filmar para guardar o presente dos momentos que passam juntas, deixando o quadro mais lento, suspenso, fluido, detalhado – guardar a pinta que aparece na pele da outra; a forma dos dedos dos pés; o sorriso com vergonha da câmera e o sorriso abobado de amor. Os detalhes desse diário de convivência são aliados ao passado assombrado – por outubro de 2018, pelas dificuldades das relações com as mães de cada uma, pela reconciliação com a palavra sapatona – e o presente fílmico que trabalha alguns desses traumas. 

Bruna Barros fala para a câmera, para sua mãe, para sua namorada e para quem mais estiver vendo, tudo de uma vez, sobre sua mainha. Transforma o filme-relação-de-amor em carta-manifesto-poema. Tudo junto, tudo escritas de si com a outra. O conflito, aqui, não é entre as Brunas, mas entre as mães de ambas, que não aparecem diretamente no filme, mas são presenças constantes – desde o título – e parecem ser também a razão pela qual as realizadoras se filmam em primeiro lugar. Mostrar o amor que existe entre duas mulheres pretas para fazer toda a poesia implicada nele escorrer para além do cinema.

No final do filme, as Brunas dançam com a câmera, que vira o olhar de cada uma, que olha com amor para a lente, que é também a namorada, e filma de volta esse afeto. Rodopios de olhares embaçados e instáveis que performam uma alteridade de si – ser com a outra. 

Frames de À beira do planeta mainha soprou a gente (2020) 

Texo Haxy parte de um lugar cujos afetos parecem se construir no próprio filme, e não necessariamente existir previamente a ele. A diferença entre duas mulheres – a antropóloga branca juruá e a indígena Mbyá – é campo de tensão e relação em constante mudança no filme. Aqui, o diário também é utilizado como recurso principal. Filma-se o que interessa a cada uma das diretoras, por mais que algumas cenas gerem desconfortos à alguma das partes – Sophia se recusando a matar a galinha, por exemplo, ou Patrícia com dificuldades em traduzir para o português o incômodo profundo que sente em guarani. O equívoco da tradução é matéria principal do filme. As duas mulheres habitam mundos diferentes mas, por meio do dispositivo do filme, encontram um ponto de comunicação – a própria imagem e as cenas que se desdobram a partir do pretexto de filmar uma à outra. O olhar devolve, com amor, confusão, ternura e raiva, tudo de uma vez, a diferença. Trabalha-se, de novo, uma relação que só existe porque a diferença existe. 

Em uma cena, Patrícia filma a aldeia Ko’enju. Ela pára em frente à casa e passa a câmera para Sophia. Vemos apenas as sombras das duas mulheres e a sombra da câmera passando de uma mão para a outra. O quadro segue instável, inquieto, numa passagem de mundo. 

A partir de duas câmeras aparentemente despretensiosas, os diários de encontro. Diários fluidos que precisam se adaptar ao olhar, história, linguagem e modo de filmar da outra para a cena acontecer. Em ambos os filmes, a relação de diferença e afeto. Em À beira do planeta mainha a diferença maior está fora de campo (a relação com suas mães e suas lesbiandades); em Teko Haxy, a diferença maior está dentro do quadro, na relação entre mundos conflitantes que se chocam suavemente em tela. Em ambos os filmes, o afeto que emana ao se dispor a filmar à outra e, com isso, também filmar a si mesma. Para filmar tem que ter um olho de um lado e outro que olha de volta. E tem que ter ainda um olho que escuta antes de devolver a fala. 

lamiramuniz Ver tudo

Larissa Muniz atua nas áreas de pesquisa, montagem, realização, fotografia e crítica/curadoria. Integra o grupo "Poéticas Femininas, Políticas Feministas'', da UFMG, e tem se dedicado a estudar modos de realização feminista no cinema e nas artes visuais.
Dirigiu os filmes “ela viu aranhas” e “eu vi nos seus olhos, da janela, eu vi, que era o fim”.

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