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Aldeia-arena: campo e extracampo em Yãmĩyhex – As mulheres-espírito (2019)

6ª Mostra de Cinema Feminista

Tento escrever sobre Yãmĩyhex já há alguns anos. Algo deste filme me desafia a ponto de me deslocar como espectadora e crítica. Talvez porque assisti-lo seja se entregar à experiência do não-saber. Isso porque o filme nos apresenta algo que eu ainda não conheci e que continuo sem conhecer. E não há muito a ser dito sobre isto. Apenas observar.

As cenas de início de Yãmĩyhex tratam de uma prática comum no cinema indígena: a reencenação e narração de mitos e histórias de outros tempos e mundos. Há muito tempo, uma disputa por alimentos entre os homens e mulheres Tikmu’un dá início à narrativa que guiará todo o ritual do filme. O título só vem uma vez terminada a encenação, fazendo-se um corte que situa o espectador no tempo. A partir daí acompanhamos o ritual contemporâneo das yãmĩyhex: mulheres-espírito.

Enquanto segura a câmera, a voz de Sueli (e em alguns momentos de Isael) nos explica o momento e as cenas que estamos vendo.As mulheres costuram vestidos que serão entregues às suas yãmĩyhex, durante o ritual de despedida dos espíritos que desejam partir da aldeia. 

No primeiro evento do ritual, homens cantam em fila. Surgem na tela a partir de uma cabana de palha que vacila entre o dentro e o fora de campo. Quem filma parece querer escondê-la, mantendo um certo mistério sobre de onde estes homens vieram. Momento depois, dessa mesma cabana saem pela primeira vez as yãmĩyhex que fazem sua primeira performance e, correndo, retornam à cabana.

Esse jogo de ir e vir, sair e entrar, se repetirá durante todo o ritual, à medida que a aldeia recebe a visita dos espíritos da andorinha, do morcego e das lontras. A performance que segue, das mulheres da aldeia, circunda a aldeia-arena. Essa relação espacial é constantemente reforçada pela diretora que filma direcionando a câmera ao eixo de acontecimentos na aldeia-palco. Durante o dia, a aldeia é cercada pelos seus próprios limites geográficos: morros e rios. Durante a noite, essa função limítrofe é cumprida pelo breu. Mais do que limites territoriais ou obstáculos visuais, criam-se limites entre o mundo dos humanos e o mundo dos espíritos. 

Os corpos se movimentam pelo ambiente sem se importarem se estão dentro ou fora do campo da câmera. O ritual não é sobre o filme e a câmera é apenas mais uma convidada. Cabe à quem filma deslocar-se e enquadrar a cena da melhor forma possível. A disputa entre os homens e mulheres, mulheres e espíritos e mulheres-espíritos toma forma à medida que os participantes se protegem com cobertores do olhar do outro. Mulheres de um lado, Yãmiy de outro.

Por fim, a disputa-ritual culmina em um embate físico entre as mulheres e os espíritos-lontra, que mais uma vez performam o movimento de entrar e sair da aldeia, vistos durante todo o filme. Trata-se de um artifício usado por eles para fazer a passagem entre um mundo e outro. 

Yãmĩyhex nos deixa por fim com algumas inquietações sobre interseções entre o espírito e a matéria, a espiritualidade e a performance, o lúdico e o real. Não que estes sejam os principais temas do filme, mas cabe a nós, brancos, nos acostumarmos a sermos espectadores-forasteiros de um cinema-outro.

Iakima Delamare Ver tudo

Iakima Delamare é graduanda de jornalismo na UFMG, atua majoritariamente na pesquisa, crítica e produção cinematográfica. Como pesquisadora, tem em foco os cinemas indígenas e de quilombo. Como crítica, compôs o Júri Jovem da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes e a curadoria do 9º Cine Cipó, festival em que atua também como assistente de produção. Por fim, como realizadora, participou de produções audiovisuais como Nove Águas, curta dirigido por Gabriel Martins com a comunidade do Quilombo Marques, e Ela Viu Aranhas, de Larissa Muniz.

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