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Antes de ser, também se é

Texto escrito como cobertura da 6ª Mostra de Cinema Feminista

Durante a 6ª Mostra de Cinema Feminista me deparo com uma seleção interessante de filmes que retratam a pré-adolescência feminina. Brasil x Holanda (2018), Duda (2019), Como ficamos da mesma altura (2019) e Receita de Caranguejo (2019) trazem ao protagonismo meninas-garotas que se deparam com as mudanças que este período implica em suas vidas. 

Em Brasil x Holanda, de Caroline Biagi, Marina viaja com os pais até o local de celebração do casamento de sua irmã mais velha. Caminhando pelos espaços da casa, Marina se vê ignorada por quase toda a família, exceto a irmã. Marina não pode assistir ao jogo da Copa do Mundo com os homens e garotos da família porque a mãe lhe atribui afazeres domésticos. Não pertence ainda ao mundo juvenil das fofocas e revistas adolescentes da irmã e suas amigas e seu pais estão absortos em seus próprios dramas pessoais. 

Em situação parecida se encontra Duda, de Eugenia Castello, que é deixada pela mãe no restaurante dos avós durante a maior parte dos dias de férias. Diferente de suas irmãs pequenas que encontram motivo para diversão em qualquer contexto, Duda se vê em um ambiente no mínimo desagradável e, em alguns momentos, hostil. Sendo o restaurante do tipo “parada de estrada”, a maioria dos clientes são caminhoneiros viajantes ou tipos similares a quem a menina é comandada a servir pela avó.  Suas irmãs, sempre risonhas, sinalizam um tempo em que talvez a protagonista tivesse sido mais feliz naquele mesmo lugar. 

Ao contrário de Duda que quer ir à praia mas não pode, Larissa — Receita de caranguejo , de Issis Valenzuera – viaja à praia sem desejar. Levada pela mãe, elas retornam à casa de praia onde um dia já estiveram na companhia de seu pai, agora falecido. Em meio ao encontro com os objetos deixados para trás pelo pai e a chegada de sua primeira menstruação, Larissa tem muito com o que lidar. A mãe, sempre atenta, aproveita a ocasião para iniciá-la em uma tradição familiar, passada de mãe para filha: a receita de caranguejo. 

Por fim, temos Laura – Como ficamos da mesma altura, de Laís Araújo – que acompanha o pai pelo interior do Alagoas. A viagem parece girar em torno do falecimento de um tio de Laura, mas isto não ganha muita atenção durante o filme. O que assistimos é como Laura lida com o fato de ter perdido uma festa em sua cidade para viajar com o pai. Ali, sem televisão ou internet, Laura enfrenta o ócio com mau-humor que por sua vez a leva a confrontos com ele.

Duda, Larissa, Laura e Marina se encontram em um contexto de deslocamento geográfico. Não é uma coincidência que quatro curtas que tratam da passagem da infância para a adolescência apoiem-se em narrativas que removem suas personagens de seu lar. Socialmente, trata-se de um período em que é comum que as meninas se sintam “sem lugar” no mundo. Mesmo que rodeada por seus familiares, nossas quatro protagonistas parecem habitar seu próprio universo. 

Cada filme simboliza isto de uma maneira: enquanto Duda e Lari recorrem aos fones de ouvido e ao celular para ignorar a realidade à sua volta, Laura se vê subtraída destes artefatos e Marina guarda um segredo. Em certo momento de Como ficamos da mesma altura, a maneira como Laura e o pai são enquadrados jantando ao mesmo tempo porém em diferentes ambientes da casa, expressa lindamente este “estar só, acompanhada”.

O descompasso das meninas com o mundo é igualmente retratado pelas atrizes pela maneira como movem seus corpos, de maneira lenta, em um ritmo diferente do resto das pessoas com quem dialogam em cena, sempre em movimento. A mãe de Lari é enérgica e animada; o pai de Laura não para em casa; os convidados da festa da irmã de Marina correm para lá e para cá com os preparativos; as pequenas irmãs de Duda tentam irritá-la mexendo em seus cabelos. 

Cada uma delas acaba por se rebelar contra a família, mesmo que apenas simbolicamente. Duda com seus fones e patins ignora as chamadas da mãe; Lari se recusa a entrar no mar; Laura discute com o pai e Marina recolhe-se para dentro do carro, fugindo da festa. É o momento em que suas individualidades se chocam contra a imagem parental da criança obediente. 

Colocados lado a lado pela curadoria do festival, estes quatro filmes nos transportam ao universo interior de cada personagem, criando juntos formas de expor ao mundo o confuso e doloroso rito de passagem de se tornar uma adolescente. 

Iakima Delamare Ver tudo

Iakima Delamare é graduanda de jornalismo na UFMG, atua majoritariamente na pesquisa, crítica e produção cinematográfica. Como pesquisadora, tem em foco os cinemas indígenas e de quilombo. Como crítica, compôs o Júri Jovem da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes e a curadoria do 9º Cine Cipó, festival em que atua também como assistente de produção. Por fim, como realizadora, participou de produções audiovisuais como Nove Águas, curta dirigido por Gabriel Martins com a comunidade do Quilombo Marques, e Ela Viu Aranhas, de Larissa Muniz.

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